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Crescimento Económico - um caso de dissonância cognitiva

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No dia 21 do presente mês estava publicada no portal sapo.pt a notícia com o seguinte título: "Cavaco espera que 'espírito' de crescimento já tenha chegado à 'troika'"

Pois assim é, mais uma manifestação do credo do crescimento: as políticas de rigor e consolidação orçamental devem ser acompanhadas por medidas que favoreçam as nossas exportações e, por conseguinte, que beneficiem o crescimento económico mais a criação de emprego.

Eu percebo e entendo que, face ao actual paradigma de mercado, a estabilidade da economia e da sociadade em geral estejam em cheque sempre que a ausência da expanção do PIB se verifique. Mais ainda, entendo também que as actuais medidas de austeridade, maquinadas por uma privilegiada minoria , constituem uma receita altamento eficaz ao agravamento da recessão - não é muito bom português uma palavra bastará: "economicídio". E o resultado está bem patente na putrefacção sócio-económica que se assiste atualmente em Portugal e em outros países à "rasca".

Daí que muitas vozes se levantem para refutar as políticas aparentemente mentecaptas que emanam da Troika, apelando para uma dose generosa de intervenção estatal, à la Keynes. Caváco, por meias palavras, lá tenta mexer os cordelinhos que tem ao seu alcance.

Mas algo aqui que me deixa perplexo. Porquê que continuamos todos, da esquerda è direita, com mais ou menos intervenção do estado, a insistir na tecla do crescimento? Como é que personalidades com assento político, supostamente bem formados e em posição encetar processos políticos que determinarão o nosso "amanhã", são cegos face ao truísmo de que não é fisicamente possível expandir perpetuamente a economia mundial? O economista Kenneth Boulding é bastante citado a este propósito e conhecido por ter dito que "aquele que acredita que a economia pode crescer indeterminadamente num planeta que é manifestamente finito das duas uma, ou é maluco ou é economista".

Segundo o relatório (2012) do WWF precisariamos, à data de hoje, de 1,5 planetas para mantermos os nossos padrões de vida. Existem muitos outros indicadores biofísicos que nos mostram, de forma transparente e clara, que vivemos acima das possibilidades dos sistemas ecológicos que dão suporte à vida das diferentes espécies, incluindo a nossa. Esta situação de "overshooting" não pode ser mantido por muito mais tempo...


De uma forma geral todos estamos familiarizados com temas mediáticos como a perda significativa de biodiversidade (30% desde 1970, segundo a fonte anterior), problemas deforestação, erosão dos solos, ..., continuem a lista por favor. Outros mediatismos premdem-se com questões de segurança alimentar, escassez de água, peak oil, etc. Só quem não quer é que não vê as cartadas geo-estratégia (da mais pesada) que são jogadas entre os diferentes blocos económicos mundiais, no sentido de assegurar acesso estratégico a recursos naturais, cada vez mais escassos (e.g. petróleo, metais raros, minerais, solo para produção de alimento e bio-combustíveis, água, biomassa, etc).

Todavia, mais do mesmo: crescimento, crescimento, crescimento. Pura dissonância cognitiva? Um estado colectivo de pura alienação ao que nos é mais essencial? Evidentemente, falta de informação não é o problema.

A perspectiva de colapso económico e social é de tal forma assustadora que faz com que o imperativo do crescimento seja colocado no topo da agenda política, independentemente da possibilidade de estamos extintos em 30 anos. Como já referido, no actual paradigma em que a economia opeara, a ausência de crescimento arrasta consigo consequências desastrosas.

Este imperativo de crescimento, porém, não é absoluto. Faz parte de um paradigma capitalista e de uma lógica neoliberal onde reina o espírito do individualismo, da ganância, da competitividade. Este espirito neoliberal, altamente institucionalizado e por muitos tido como "natural" (e.g. homo economicus), reinforça mecanismos espiralados de acumulação de lucros, expansão de crédito, reinvestimento, acumulação de lucros, etc... que quando interrompidos arrastam toda a economia para uma espiral diametricalmente oposta - uma espiral de desgraça.

Se por um lado é impossível continuar a crescer e, se por outro, operamos num paradigma totalmente dependente de crescimento, qual é a solução? (Parece insultuoso perguntar) ... pois claro, mudemos de paradigma.

Esta transição, contudo, não é rápida, linear ou suave. Implica uma mudança institucional profunda. Implica também uma reavaliação moral. Uma reconceptualização do nosso imaginário colectivo onde o global é preterido pelo local, a lógica competitividade é substituida por uma lógica de cooperação, o individualismo dá lugar ao comunitariamismo, o materialismo perde relevância face à convivialidade, o privado esmorece e dar lugar ao público, o ter dar lugar ao ser.

Uma transição e este nível implica a ignição de decisões sagazes que vão contra à monetocracia instalada. Difícil, sem dúvida, mas não impossível, de todo. Em boa verdade a transição já se iniciou há umas décadas atrás com o aparecimento de movimentos socio-ambientalistas e activistas dos anos 70. É assumidamente um processo vagaroso que tem sido agitado pelas tripla crise socio-economico-ecologica dos últimos casos. A multiplicação de novos grupos e movimentos activistas um pouco por todo lado dão um claro sinal de mundança, ainda que a um nível que não vai além da marginalidade.

Já quanto à classe política, a qual acarreta a óbvia responsabilidade de dinamizar a transição para o novo  paradigma, parece não estar dotada de suficiente inteligência ou coragem para encetar o processo. Um sábio uma vez disse: "se os supostamente liderados liderarem, os líderes seguirão". Que assim seja.

Discussion 2 Comments

  • Miguel Ramos 31st May 2012

    Saudações por combateres uma ideia feita. Mais por ser a do crescimento económico.

  • Pedro César Campos 2nd Jun 2012

    Retribuo as saudações Miguel. Apreciei o teu comentário ao outro post. Um abraço